A Pequena África que deu ao Rio o samba e identidade

Todo dia às 9h da manhã, turistas nacionais e estrangeiros começam a se aglomerar na Praça Mauá, de onde saem para percorrer as ruas de uma região da Cidade Maravilhosa que até bem pouco tempo atrás era apenas um local de passagem: a zona portuária. 

Formada pelos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, a área foi apelidada pelo sambista Heitor dos Prazeres de “Pequena África, o berço histórico da população afro-carioca e do samba”. 

De uns anos pra cá, em meio a uma revalorização da cultura e da identidade negra brasileira, a região vem se destacando na cena cultural do Rio e do País.

Para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, o Rio passou por uma grande transformação urbanística, e a zona portuária – que estava degradada, esquecida e suja – recebeu o Projeto Porto Maravilha, que previa o desenvolvimento turístico e sociocultural da região. 

Durante aquele processo de revitalização, e considerando a importância histórica e os achados arqueológicos na região, a Prefeitura criou o Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana, popularmente conhecido como o Circuito da Herança Africana. 

Hoje o Largo da Prainha, a Pedra do Sal e o Cais do Valongo são referências históricas e de lazer. As ruas ganharam colorido e vida. Há grafite por todos os lados, mas o tour ali não acontece só por conta das fotos instagramáveis: o visitante pode mergulhar fundo na identidade brasileira e nas questões sociais de ontem e de hoje. 

Apesar dos limites do projeto de revitalização e das consequências da “gentrificação”, a região se transformou num novo pólo turístico e gastronômico, e está ajudando a popularizar o afroturismo.

Bares e restaurantes começaram a ter mais movimento, e novos empreendimentos começaram a surgir. Novos artistas se instalaram na região e a conectaram com antigos agitadores culturais. 

Há três anos, quando a Time Out rankeou os “bairros mais legais do mundo”, a Saúde garantiu a 25ª colocação entre 49 destaques. 

Existem diversas agências que ativam o afroturismo na região, como a Sou Mais Carioca, onde eu trabalho, a Conectando Territórios, e a Rio Encantos – todas lideradas por mulheres negras.

Recentemente, a indústria do turismo tem visto uma busca crescente por experiências que discutam a diáspora africana e suas consequências. O mercado internacional também tem seguido esse contexto, e o “black travel movement” hoje tem o Brasil como um grande destino.

Diante dessa nova realidade, a cada final de semana a Pequena África recebe mais e mais pessoas que buscam compreender, sentir e viver a herança africana. A região oferece atividades diurnas e noturnas muito diversas, e para diferentes faixas etárias. Há inúmeros museus e centros culturais, como por exemplo o MUHCAB – Museu da História e da Cultura Afro Brasileira, e o MAR – Museu de Arte do Rio.

Há teatro nas ruas, atividade circense, blocos de carnaval, festas e, claro, rodas de samba. A região constantemente sedia eventos que promovem cultura e arte. Bares e restaurantes oferecem boa comida e atrações musicais. Isso tudo misturado às visitas guiadas.

A Pequena África turística está ligada a duas Pequenas Áfricas históricas: uma ligada à tragédia da escravidão e outra ligada à luta por liberdade, marcada pela capacidade de reinvenção do povo brasileiro. 

Ambas vêm à tona e formam o caldeirão cultural que  hoje é a zona portuária do Rio de Janeiro. Se você ainda não foi conhecer, não perca tempo. Seja bem-vindo.                              

Luana Ferreira é guia de turismo e historiadora, e lidera um tour pela Pequena África. @luacariocaafroguide

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